Da sensação ao conhecimento
Para garantir sua segurança ou, mais simplesmente, para sobreviver, o homem das origens, como todo primata, via-se obrigado a cada instante a prestar a máxima atenção aos sinais que, por sua simples presença, lhe transmitiam os seres e as coisas que o rodeavam. Trata-se, aliás, de uma necessidade sempre atual, ainda que ilusoriamente atenuada pela civilização. Hoje, como ontem, somos constrangidos a exercer uma vigilância contínua, e a maior parte do tempo subconsciente, sobre nossa ambiência cotidiana: por exemplo, sobre a alimentação, o clima, o trânsito, os múltiplos encontros ao acaso, dos quais nossa experiência está longe de avaliar todas as implicações. Desde a origem a vida do homem dependia, portanto, de sua função de conhecimento, se é que se pode aplicar esse termo ambicioso a uma atenção tão elementar.
Ora, hoje, como ontem, a dimensão das mensagens que nos chegam do ambiente difere de acordo com o órgão receptor. Os três sentidos mais concretos, o tato, o paladar e o olfato, ajustam-se, por assim dizer, a seu objeto, que geralmente se acha muito próximo. Por eles parece que nosso conhecimento coincide com a nossa sensação. Entretanto, é muitas vezes difícil atribuir-lhes uma especificidade precisa. O tato é cego, polivalente e pouco seletivo. Mistura diversas noções relativas aos objetos tocados, sua forma, seu peso, seu calor, sua resistência, sua textura. Ao contrário, se tentarmos qualificar os sabores que o paladar nos revela, a originalidade de cada um é tão exclusiva, tão distante de qualquer comparação que possa permitir-nos ligá-los a normas referenciais ou simplesmente vizinhas, que nós nos resignamos a subdividi-los grosseiramente em quatro grupos: o amargo, o ácido, o salgado, o doce, aos quais a China acrescenta o acre. Em relação aos odores absorvidos pelo olfato, cujo sistema de detecção estamos longe de utilizar como nossos irmãos mamíferos, são subjetivamente repartidos por nós em dois grupos elementares, os agradáveis e os repelentes, enquanto, se nos referimos às capacidades de nossos amigos os cães e os gatos, os mil odores do mundo serão para eles tão individualizados quanto para nós as fisionomias de nossos amigos.
Dois outros sentidos mais intelectuais, a audição e a vista, nos ensinam sobre as fontes de informação, em geral fora do nosso alcance. Do perfume de uma flor ao ruído de um sino e ao brilho de uma estrela, a fonte deles se afasta cada vez mais, e tanto que, para a estrela, a claridade retrospectiva data talvez de milhares de anos-luz. Sem dúvida, o poder da vista compensa seu caráter conjectural. Mas, se o olho pode perceber a chama de uma vela à distância de dezessete quilômetros, ele não nos permite a certeza de que aí se trate realmente de uma vela.
No que concerne à audição, a zona de ruídos perceptíveis pelo ouvido, limita-se a dez ou onze oitavas, e é necessário ser um músico consumado para identificar, a um quarto de tom, a nota emitida pelo ruído percebido. Informação, aliás, que só poderá ser compreendida por um outro músico igualmente bem dotado.
Essa imprecisão subjetiva dos nossos sentidos deriva do fato de provirem todos da pele e do tato, que Epicuro já considerava como o sentido fundamental. Nossos outros sentidos daí se destacaram por uma especificação do ectoderma embrionário e conservam, da modesta origem, muito de sua superficialidade. Tanto mais que as mensagens das células sensoriais que acabamos de enumerar, para serem por nós assimiladas, devem atravessar numerosos centros nervosos, medula, hipófise, hipotálamo, corpo estriado, córtex, que têm por função elaborar a síntese destas mensagens e comunicá-las às funções motoras que as transformam em a-tos, voluntários ou não, permitindo sua interpretação racional.
Há muito tempo Leibniz, citando o famoso adágio escolástico segundo o qual nada há na inteligência que não tenha passado antes pelos sentidos, acrescentava-lhe a correção fundamental: senão a própria inteligência, que restabelece no primeiro plano de nossa apreensão dos signos a atividade do nosso pensamento. Plínio já o havia dito: "É por meio do espírito que se vê".
A psicologia contemporânea chama de "projeção" a interpretação pela qual nosso intelecto faz passar cada signo percebido, que sem essa tradução permaneceria para nós incompreensível. Alberti, em seu tempo, havia reconhecido o fato no artista. Cada nova mensagem é interceptada por um crivo de referências estritamente pessoais. Parece, aliás, que, para qualificar essa operação, o termo "supra-impressão", que o cinema nos tornou familiar, seria mais evocativo que a palavra "projeção". Ele nos levaria a melhor compreender a natureza retroativa desse palimpsesto de imagens, que faz reviver para toda percepção nova uma sensação antiga instintivamente reaparecida.
Em resumo, nada pode ser compreendido por nós sem que nos leve a uma de nossas recordações. Nada podemos admitir sem que possamos aproximá-lo de um precedente conservado em nossa memória. É o que os pensadores de todos os tempos repetem incansavelmente. "Nosso conhecimento depende de uma reminiscência", diz Platão. "A palavra dor só começa a significar alguma coisa no momento em que faz retornar à nossa memória uma sensação que já experimentamos", diz Diderot. "Só se vê aquilo que se conhece", diz Goethe. "Não podemos admitir a existência de uma coisa, se não lhe pudermos dar uma significação", diz Cassirer. Depois de tantos outros, Proust redescobriu essa coincidência de duas experiências afastadas, mas alargando-lhe o campo de aplicação até confundir duas ambiências geográficas e sentimentais, dois momentos e duas situações de sua vida, que fizeram ressurgir o sabor da "madeleine de Combray" e o contato dos calçamentos desiguais de São Marcos.
Toda sensação faz assim retornar à superfície da consciência um esquema mental esquecido, um signo correspondente a uma impressão já experimentada. É o que permite classificar este signo em uma estrutura "temática" da memória e, por conseguinte, reconhecê-lo e aceitá-lo. Gombrich definiu essa operação numa frase: "Decifrar uma mensagem é perceber uma forma simbólica".